domingo, 6 de maio de 2007

Emoções humanas



A emoção e os sentimentos constituem a base daquilo que os seres humanos têm descrito desde há milénios como alma ou espírito humano.(...)

É bem sabido que, sob certas circunstâncias, as emoções perturbam o raciocínio. As provas disso são abundantes e estão na origem dos bons conselhos com que temos sido educados. Mantém a cabeça fria, mantém as emoções ao largo! Não deixes que as paixões interfiram no bom juízo. Em resultado disso, concebemos habitualmente as emoções como uma faculdade mental supranumerária, um parceiro do nosso pensamento racional que é dispensável e imposto pela natureza. Se a emoção é aprazível, fruímo-la como um luxo; se é dolorosa, sofremo-la como um intruso indesejado. Em qualquer dos casos, o conselho dos sábios será o de que devemos experenciar as emoções e os sentimentos apenas em quantidades adequadas. Devemos ser razoáveis.

Damásio, António, O Erro de Descartes, Publicações Europa-América

sábado, 5 de maio de 2007

Dimensão cultural do homem



Sem homem não há cultura. Mas sem cultura não há homem.
Pode-se discutir se o homem actual nasce com a cultura ou, o que é infinitamente mais verosímil, com a faculdade de assimilar a cultura da sua época. (...)
O homem se não aprender, não sabe que fazer dos materiais com os quais edifica a mais rudimentar das choças. Ele não sabe fabricar um utensílio por instinto. É necessário inclusivamente ensiná-lo a andar. (...)
Em virtude do seu legado, o homem afastou-se do animal, mas tornou.se estreitamente dependente dos outro homens.
Clarke, Robert, O Nascimento do Homem, Gradiva

A dimensão social da natureza humana



Constitui uma ideia já aceite que o homem não tem natureza, mas sim que tem - ou melhor que é - uma história.(...)
Na verdade, o comportamento, no homem, não deve à hereditariedade específica uma parte tão importante como nos outros animais. (...)
A vida rígida, determinada e regulada por uma dada natureza, substitui-se nesse caso pela existência aberta, criadora e ordenadora de uma natureza adquirida.
Deste modo, pela acção das circunstâncias culturais, poderá aparecer uma pluralidade de tipos sociais e não um único tipo específico, diversificando a humanidade no espaço e no tempo. O que a análise das próprias semelhanças mostra de comum nos homens é uma estrutura de possibilidades que não pode manifestar-se sem contexto social, seja ele qual for.

Malson, Lucien , As Crianças Selvagens - mito e realidade, Livraria Civilização

sexta-feira, 4 de maio de 2007

O homem é um mistério para si próprio


O homem não deve poder ver a sua própria cara. Isso é o que há de mais terrível. A natureza deu-lhe o dom de não a poder ver, assim como de não poder fitar os seus próprios olhos.
Só na água dos rios e dos lagos ele podia fitar seu rosto. E a postura, mesmo, que tinha de tomar, era simbólica. Tinha de se curvar, de se baixar para cometer a ignomínia de se ver.
O criador do espelho envenenou a alma humana.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Alma azul

terça-feira, 1 de maio de 2007

O homem contranatura

Para se convencer da sua singularidade, o género humano - ou a parte do género humano que se arroga o direito de falar em seu nome - levanta barreiras à sua volta e coloca-se em oposição ao resto dos seres animados. (...) A causa que desencadeou a erupção do género humano, separando-o do mundo animal e material, a diferença que permitiu ao homem içar-se acima das outras espécies - ou de outras fracções da humanidade: primitivos, mulheres, crianças, etc., tidos como mais próximos da animalidade - são facetas desse problema. O afastamento em relação à natureza, a formulação de uma ordem à parte, artificial, representa actualmente a substância da sua solução (...)
Moscivici, Serge, A Sociedade Contranatura, Livraria Bertrand

O Homem é uma incognita para si próprio


Todos sabemos que somos animais da classe dos mamíferos, da ordem dos primatas, da família dos hominídeos, do género homo, da espécie sapiens, que o nosso corpo é uma máquina com trinta biliões de células, controlada e procriada por um sistema genético que se constitui no decurso de uma longa evolução de 2 a 3 biliões de anos, que o cérebro com que nós pensamos, a boca com que falamos, a mão com que escrevemos são orgãos biológicos, mas este conhecimento é tão inoperante como o que nos informa que o nosso organismo é constituído por combinações de carbono, de hidrogénio e de azoto.
Morin, Edgar, O Paradigma Perdido, Publicações Europa-América